segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Relógio normal*

por Rafael Zacca

Aguardo
teu acidente
            & aceno das ferragens
            anéis de metal rebentam
            minhas costelas
te erguem soberba.

Aguardo
tua chegada
            & ardo vivo nas turbinas
            o avião corta nuvens
            você (além-céu)
desvia chamadas.

Aguardo
tua velhice
& já estou velho
ossos quebrados
e livros antiquados
contam o futuro.

Aguardo
teu filho
& meu cordão umbilical
se parte, o filho
que não fizemos nasce
todas as manhãs.

Aguardo
as horas
& meu segundo
espeta o coração –
mina que ao toque
palpita o fogo.

Aguardo
a grama
decomposta
pela vida

minúscula
dos vermes
que sabem
a demora

eles comem
tudo aquilo
que aguardei.


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*Poema originalmente publicado em Kraft | Rafael Zacca (2015, Ed. Cozinha Experimental), e também na revista Mallarmargens.