terça-feira, 26 de julho de 2016

O poema antes da literatura | Sophia de Mello Breyner Andresen

Alguma poética a partir de "Arte Poética IV"
de1972

por Rafael Zacca



Sophia narra a sua iniciação com a poesia: ensinavam-na a decorar poemas, e assim teve a impressão, ainda muito nova, de que os poemas “não eram feitos”, como se tivessem a misteriosa imanência das coisas do mundo.

Dessa experiência fundadora, surgiu uma concepção de poesia como escuta. Mais exatamente, da poeta como escutadora. O poema emerge para quem está atento. O que os antigos chamavam musa, os modernos subconsciente, e que Sophia prefere não nomear.

Não nomear é um jeito de não parar de escutar.

“Deixar que o poema se diga por si, sem intervenção minha (ou sem intervenção que eu veja), como quem segue um ditado (que ora é mais nitido, ora mais confuso), é a minha maneira de escrever.”

A aliança possível com as coisas, que o poema representa, vem, em Sophia, pela faculdade da escuta. Para ela, o poema está antes da literatura, antes da escritura. No momento em que nasce, se torna anterior ao seu nascimento. Ele se torna, efetivamente, pré-mundo. Ou mesmo condição de mundo.

Que ética se desenha desde Sophia? A justiça do poema é elaborar a escuta. Deixar um poema emergir é preparação para que outra coisa apareça no mundo.

É essa a justiça do mundo – a da escuta – que anuncia Sophia. Podemos ler:

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente

sexta-feira, 22 de julho de 2016

“Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres”

Um otimismo realista em Sophia de Mello Breyner Andresen


Alguma poética a partir de "Arte Poética III"
de 1964

por Rafael Zacca



Os produtos dos artistas foram tratados, ao longo da história do pensamento sobre a arte, em contraposição ao real. Desde a ideia do rebaixamento mimético às elocubrações em torno do fantástico, partidários e detratores da arte, idealistas e materialistas, platônicos e marxistas se debatem contra essa espécie qualitativamente distinta de aparição. Quando tais produtos aparecem ligados à faculdade da imaginação, acredita-se, comumente, que o real é uma esfera aprisionada pelas relações de necessidade da natureza, com suas leis inexoráveis; a arte seria a fissura imaginativa que traria uma espécie de “e se fosse possível...” para a realidade.

Para Sophia de Mello Breyner Andresen, as coisas se passam de maneira um pouco diferente. Em sua Arte Poética III, a poesia não aparece como produto de fantasias ou fantasmas, mas como uma aproximação bruta do real. Homero seria, para ela, um poeta pleno de “felicidade nua e inteira” por trazer o “esplendor da presença das coisas.”

É como se o mundo, para Sophia, fosse um conjunto de véus, tecidos e dobras que ocultam a matéria. A poesia remove esses costurados para encontrar uma realidade fragmentada, rompida, quebrada. E o que ela faz? Se ela fosse imaginação, ela seria capaz de remontar os cacos perdidos, reconstruir a ânfora do princípio dos tempos; mas ela é, em Sophia, um encontro com o real. Para a poeta, a poesia realiza uma aliança entre estes cacos. Os poemas são presenças que cercam a matéria das coisas, estabelecendo não apenas limites – pois um corpo impõe limites – como também ponte, afeto, acesso.

Para Sophia, a relação que se constitui com a presença do poema se desdobra em todos os aspectos da vida humana. É por isso que ela cobra uma justeza dos poetas no trato com as coisas. Se alguém é justo perante o “esplendor” da presença das coisas no mundo, e se trabalha tentando fazer justiça a essa aparição com outra aparência igualmente material e real (a relação entre um poema e uma maçã vermelha, por exemplo), conclui Sophia, este alguém será justo em todas as esferas da vida.

Nessa correspondência reside a moral e a política da poesia: ela não precisa obedecer a leis, veicular conteúdos dignificantes, nem falar de fatos socialmente relevantes – desde que trate com justeza seus objetos, atuará no mundo de seus leitores multiplicando relações justas.

Essa justiça “confunde-se com a nossa confiança na evolução do homem, confunde-se com a nossa fé no universo. Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma.”


A poesia é um exercício de otimismo em Andresen. Não com o curso da história humana: mas com a própria poesia, e sua capacidade de estabelecer alianças justas em um mundo de sofrimento. Sophia nos diz: “Como Antígona a poesia do nosso tempo diz: ‘Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres.’”



quinta-feira, 14 de julho de 2016

Solidão: arte artesanato | Sophia de Mello Breyner Andresen

Alguma poética a partir de "Arte Poética II"
de 1963

por Rafael Zacca

Sem o signo da solidão dificilmente se compreenderá o que se segue.

É lugar comum no pensamento sobre a arte a separação do trabalho da artista com o da artesã. É de uma distinção desse tipo, e no entanto mais complexa e sutil, que parte o pensamento de Sophia de Mello Breyner Andresen.

Enquanto artesanato exigiria tempo, trabalho, estética e ciência, no seu trato direto com as coisas, a arte exigiria “intransigência sem lacuna”, “inteireza do ser”. Aquele é caracterizado como trabalho com matéria; esta, união do ser com o cosmo, ou estabelecimento de aliança com as coisas. Estamos lidando com metafísica? Na sua primeira Arte Poética, Sophia frequenta uma loja de artesanato e lá descobre sua ligação possível com o mundo (algo muito similar ao que considera o poder mágico da poesia). Não pode se tratar de uma divisão estanque.

É preciso, antes, estabelecer uma segunda distinção que aparece na Arte Poética II. Sophia quer distanciar-se do trabalho da teórica, que falaria diretamente da vida do cosmo, da vida meramente ideal. A arte, ao contrário da teoria:

'não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.'

Para Sophia, a arte é o encontro fortuito da artesã com a teórica, sem que a artista se confunda com nenhuma dos duas. É uma justaposição de duas qualidades derivadas de seus trabalhos; nesse sentido, a artista é, por vezes, artesã, no trabalho com uma linguagem, e teórica, quando, com a linguagem, nomeia sua visão de mundo.

Artista é artesã – mas de outra natureza. Seu trabalho com as coisas é indireto, aparece depois do estabelecimento das alianças, que são possibilitadas pelo trabalho artesanal com a linguagem.

As mãos de Sophia não podem tocar a concretude. Tudo está disperso, e a poesia é a mensageira que entrega uma carta para o ângulo da janela, para a ressonância das rua, das cidades e dos quartos, para a sombra dos muros, para a aparição dos rostos, para o silêncio, para a distância e o brilho das estrelas, para a respiração da noite, para o perfume da tília e do orégão.

Se as palavras nomeiam a visão de mundo, pode o artesanato se dirigir diretamente, sem mediações, a elas? Não me parece. O trabalho artesanal com a linguagem é possível com a dedicação integral ao ser; o trabalho de si, o cuidado de si, a dedicação de tempo, trabalho, ciência e estética voltados sobre si. Uma tautologia sem limites, se quiserem. Sophia só pode cuidar de Sophia; é assim que as palavras se abrem a uma artesania maior.

Artistas e artesãs não se distinguem por seus produtos. E se falamos de palavras é porque Sophia as usa; mas também o barro pode ser um mensageiro dedicado.

Tão só.





terça-feira, 12 de julho de 2016

Poesia como preparação e aliança | Sophia de Mello Breyner Andresen

Alguma poética a partir de "Arte Poética I"
de 1962

por Rafael Zacca

1.
OLHAR

Sophia nos conta um mundo de dispersão, uma diáspora entre coisas. A solidão generalizada. Temos acesso às coisas? Podemos tocá-las e sermos tocados? Este mundo de separação é "semelhante ao corpo de Orfeu dilacerado pelas fúrias".

A poesia, desenvolvida pela técnica, mas que em muito a ultrapassa, contempla, graças a algum misterioso ascetismo, esse acúmulo do despedaçamento. A imagem da primeira das Artes Poéticas de Sophia de Mello Breyner Andresen é a de uma loja de artesanato de barro; sua descrição da posição de cada peça, cada louça, cada prato e ânfora, reflete um cuidado para que nada se parta.

A poesia não dá a ver os objetos, as coisas, as pessoas, o que quer que o valha. Ela permite, muito mais, limpar o olhar; prepará-lo para uma revelação. Por isso, talvez, Sophia considere um conceito de beleza extra-estético, isto é, além da aparição. A beleza, que a poeta chama de beleza poética, está indissociada de uma verdade que lhe é correspondente, à qual constitui. “Olho para a ânfora na pequena loja dos barros. Aqui paira uma doce penumbra. Lá fora está o sol. A ânfora estabelece uma aliança entre mim e o sol.”

2.
MAGIA

A arte poética é, em Sophia, uma das formas de religamento com o mundo; neste sentido, a função poética se confunde com a religiosa. Tal relação se dá menos pela doutrina que pela revelação que lhe serve de citação.

O seu mundo é (ou se encontra, historicamente, em) um todo confuso e estilhaçado. Não é amparado por deuses, nem por reis. Outra forma de dizer que não existem maneiras de se balizar sentidos, ou conteúdos essenciais. O desamparo fundamental da existência, no entanto, parece exigir salvação; não por novos deuses ou reis, mas por um gesto a um só tempo divino e real. 

A poesia parece efetuá-lo.

O gesto divino da poesia é o que prepara o olhar para as coisas, que em sua dispersão se escondem em sombras e poluição. O gesto real, isto é, de realeza, se configura no estabelecimento de alianças, em que se fundam reinos. A poesia se revela como um gesto de transformação do simples habitat (a Terra como mundo habitado por seres dispersos) em reino (complexo de aliados).

Uma aliança que faz com que um eu tome por iguais o que quer que seja (vivo ou inorgânico); de qualquer forma, uma aliança tomada como tarefa. Se a poesia é um gesto, e se as coisas estão dispersas, a aliança tem a frágil duração do movimento. É o que Sophia chama de “aliança ameaçada”.

A poesia, então, não transforma permanentemente o habitat em reino, o que se configuraria como tirania: ela remete ao gesto de amizade entre um eu e coisas, um reconhecimento de dignidade mútua, que vê no outro “um companheiro mortal da eternidade”.

A salvação de Sophia se dá pelo estatuto de realeza precário e potencial em tudo o que existe; a poesia o efetua.


Rafael Zacca






Sophia nos anos 1960 | Fotografia de João Cutileiro