segunda-feira, 3 de outubro de 2016

"Cu" como campo de testes em “Ocupa”, de Dimitri BR

Quatro notas sobre uso, corpo e linguagem
por Rafael Zacca






1. Que a nós não nos seja dado o uso de todo o corpo, o simples uso do corpo, testemunham as constantes investidas da primeira infância – já liberta da necessidade do bebê – contra o regramento corporal (frequentemente compreendidas sob o signo precário da ignorância). Quando postulamos, por exemplo, uma “fase anal” naqueles aproximados três anos de vida depois da chamada “fase oral”, que supostamente deveria ser superada no desenvolvimento psicossexual da pequena criatura até o seu amadurecimento genital, interditamos uma coisa tão preciosa quanto a ginástica ou a teoria. Não interditamos, simplesmente, o livre uso do cu, mas a possibilidade mesma de teste – e, portanto, de plurisignificância – prometida em cada parte corporal. Dois livros recentes se debatem com esse problema. Um deles, Corpo de festim, de Alexandre Guarineri, devolve o tabu para o centro das questões de valorização e desvalorização dos corpos e da vida, culminando no par catártico "ânus humano (.) ônus santo".[1] Por sua vez, Ocupa, de Dimitri BR, parece querer restituir o campo de testes corporal que a vida adulta na civilização pretende recalcar. E, assim como para o poeta o teste da linguagem é condição de possibilidade de sua produção ou de sua demolição de sentido, estabelecendo certa “economia” dos elementos em sua arquitetura, da mesma forma o teste anal quer constituir uma “ecologia” do corpo.[2] O poema que abre o livro, não por acaso, é intitulado “Desperdício”: “pesquisas apontam / há quem use menos / de 10% do corpo / para fazer sexo”.

2. A civilização reclama seu quinhão na sexualidade e na satisfação pulsional limitada dos ocidentais. Os sistemas pedagógicos familiares e sociais têm papel medular nesse enfraquecimento fundamental. O desenvolvimento das forças produtivas não intensificou os viventes. Conhecemos a tríade civilização-impotência-educação em nossas sociedades, e parece ser disso que trata o “Erro de português” de Oswald de Andrade: “Quando o português chegou / Debaixo duma bruta chuva / Vestiu o índio / Que pena! Fosse uma manhã de sol / O índio tinha despido / O português”. O livro de Dimitri não apenas tem uma seção inteira dedicada à “Volta às aulas” (retorno que está no cerne do motor poético de Chacal, e que revela o fio secreto entre a perspectiva de aluno presente em sua vida-obra e um livro como Seu Madruga e Eu), como também traz, na seção “Ocupa”, um poema inteiro dedicado a expor, pelo avesso, a tríade a que nos referimos; mas não somente isso, como também inaugura, desde aí, a linguagem como campo de testes privilegiado na restituição do corpo. O poema “Tucupi-Guarani” é uma rememoração do cu português a partir do repertório linguístico ameríndio: “bacurau  bacurituba / bacurubu  baiacu / brecambucu caacupê / caculé cuia cuité / cupim cupuaçu (...)”, etc. Toda a organização linguística da primeira parte do livro é realizada a partir das significações possíveis desta sílaba: cu. Trata-se, efetivamente, de um aprendizado, de uma realfabetização, que pretende ensinar um pouco mais que o uso da cavidade anal. O poema “La_ _na”, ao fazer desaparecer do título e do corpo o cu, sugerindo que o leitor complete os espaços em branco, indica não apenas a possibilidade de interação anal, como também de inserção de qualquer substantivo na ginástica linguística. Podemos fazer o teste inserindo palavras tão distintas quanto deus, guaraná, medo, frio, biscoito, etc:

todo mundo
tem _ _
ele e ela
eu e tu

quem tem _ _
tá vivo
quem tá vivo
tem _ _

quem tem _ _
tem medo?
quem tem
medo do _ _ ?


3. “Meu pai era drag” conta a história de um homem assalariado pelo Banco do Brasil, ao qual era obrigado “a ir todo dia montado”, à exceção do carnaval, quando o homem, uma vez por ano, “desmontava no Salgueiro / a drag do ano inteiro / liberdade carnaval”. Impossível não lembrar de Agrado, a travesti de Todo sobre mi madre, de Pedro Almodóvar, para quem o autêntico se identificava não com o natural, mas com o artificial. Ao listar o preço de suas operações e cirurgias, Agrado arremata: “estaba diciendo, que cuesta mucho ser auténtica, señora, y en estas cosas no hay que ser rácana, porque una es más auténtica cuanto más se parece a lo que ha soñado de sí misma.” No filme de Almodóvar, de cores muito saturadas, o coração implantado no corpo é ressaltado como fundamento de continuidade da vida. Tanto o poema de Dimitri quanto o discurso de Agrado produzem menos a valorização do meramente artificial em oposição ao natural, que a compreensão de que aquilo que é dado como natural, original ou autêntico é já o fabricado. Todos os usos do corpo são artificiais – a reeducação pelo ânus não conduz a uma verdade anterior do corpo, mais original, mas àquela verdade que concebe qualquer substância como um campo de testes. O campo de testes ameaça o que é testado: é o que testemunha Um teste de resistores, de Marília Garcia, que submete a uma bateria deles a própria estrutura narrativa, "acidentando" o eu-lírico no decorrer do livro. No acidente, no entanto, mora a chance de deformação, ou transmutação. As reinvenções do poema “Quadrilha”, de Drummond, intituladas por Dimitri “Quadrilha: três modos de jogar”, emulando diversos jogos coletivos, testemunham essa propriedade transmutável de todas as coisas por meio da linguagem.

4. O livro, e a seção que mais trabalha o significante "cu", trazem como nome o termo "ocupa". A sugestão imediata é a de que o teste do corpo tem qualquer relação com a ocupação de espaços, e, portanto, com a restituição, em alguma medida, da praça pelo público. "A rua mandou um beijo" é o complemento público das imagens drag familiares ou íntimas. O que se revela como força profanadora - isto é, como aquela força que não reconhece a autoridade da distância e quer se aproximar do sagrado - é o amor. É o próprio Ocupa que propõe a leitura como devoração do interdito e, ao mesmo tempo, como expressão desse amor (afinal, são três palavras):

                                               são três palavras
as mais bonitas
as mais ansiadas

a mais singela
a mais antiga
declaração

de entrega
de desejo
de amor

come
meu

cu



[1] Desenvolvi o assunto em crítica publicada no Outras Palavras: http://outraspalavras.net/posts/do-primeiro-choro-ao-livro-da-vida/ 

[2] Essa ideia de certa "ecologia" do corpo foi sugerida em encontro com o autor na Oficina Experimental de Poesia. Foi sugerida pelo crítico Luiz Guilherme Barbosa.

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