domingo, 27 de novembro de 2016

Jorge Luís Borges | Dezessete haikus e um sonho de Kafka

Dezessete haikus -  Jorge Luís Borges
[trad. Rafael Zacca]

1

Coisas me mostraram
a montanha e a tarde.
Já se olvidaram.

2

A vasta noite
não é agora outra coisa

que uma fragrância.

3

É ou não é
o sonho que olvidei
na madrugada?

4

Calam as cordas.
A música sabia
o que eu senti.

5

Já não me alegram
as amêndoas da horta.
São tua memória.


6

Estranhamente
livros, lâminas, chaves
seguem-me a sorte.

7

Depois de então
não movi nenhuma peça
no tabuleiro.

8

Acontece a
aurora neste deserto.
Alguém o sabe.

9

A ociosa espada
sonha com suas batalhas.
Outro é meu sonho.

10

O homem morreu.
A barba não se sabe.
Crescem as unhas.

11

Esta é a mão
que alguma vez tocou
tua cabeleira.

12

Sob os beirais
não copia o espelho nada
a mais que a lua.

13

Sob uma lua
a sombra que se alonga
é uma só.

14

É um império
a luz que sofre dano
ou é um pirilampo?

15

A lua nova.
Ela também assiste
desde outra porta.
  
16

Longe um trinado.
O rouxinol não sabe
que te consola.

17

A velha mão
segue traçando versos
para o esquecido.


-*-*-


Ein Traum - Jorge Luís Borges
[trad. Rafael Zacca]

Sabiam-no os três.
Ela era a companheira de Kafka.
Kafka a havia sonhado.
Sabiam-no os três.
Ele era o amigo de Kafka.
Kafka o havia sonhado.
Sabiam-no os três.
A mulher disse ao amigo:
Quero que esta noite me queiras.
Sabiam-no os três.
O homem respondeu: se pecarmos,
Kafka deixará de sonhar-nos.
Um o soube.
Não havia mais ninguém na terra.
Kafka se disse:
Agora que se foram os dois, fiquei só.

Deixarei de sonhar-me.




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