sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

[Tradução] O Sol de Charles Baudelaire


O Sol
[trad. Rafael Zacca]

Pelos velhos subúrbios, nos quais os casebres
abrigam em cortinas secretos prazeres
enquanto o sol cruel perfura com traçado
a cidade e a campina, o telhado e o arado,
exerço a sós a minha fantástica esgrima,
cheirando em todo canto uma chance de rima,
tombando nas palavras como nos sobrados,
e chocando por vezes com versos sonhados.

Rival da palidez, este pai sempre alerta
o verme como a rosa no campo desperta,
evapora a moléstia no verso do céu,
e ao cérebro e à colmeia ele enche de mel.
É ele que faz jovens os envelhecidos
e lhes dá a doçura dos recém-nascidos,
e comanda à lavoura a madurar e crescer
no imortal coração, que ainda quer florescer!

Quando, feito um poeta, ele desce às cidades
dignifica a sina das vulgaridades,
e irrompe feito um rei, sem ruído ou criado
em qualquer hospital ou em qualquer condado.



Le Soleil
[Charles Baudelaire]